Saudações fraternas.
Uma das obras mais importantes da história da filosofia, e talvez da humanidade, foi escrita no século IV antes de Cristo, por aquele que se tornou referência clássica, Platão (c. 428 a.C.-347 a.C.). Não seria errado definir "A República" como obra de Filosofia Política, mas, é preciso reconhecer que ela não contribui exclusivamente para esta área, contribui muitíssimo para a Ética, a Epistemologia, a Antropologia e talvez mais uma dezena de campos de investigação humana.
Escrita por volta de 380 a.C., "A República" (em grego, Politeía) é uma obra em forma de diálogo, onde Sócrates, o mestre de Platão, é a personagem principal. O contexto da obra é marcado por um período de grandes transformações políticas em Atenas, após a Guerra do Peloponeso, que enfraqueceu a democracia ateniense e levou a uma série de conflitos e instabilidades internas. Platão, profundamente desiludido com a política de seu tempo, propõe nesta obra uma reflexão sobre a natureza da justiça, a organização ideal da sociedade e a educação dos agentes sociais, principalmente marcando um contraste nítido entre o ideal e o mundano.
"A República" é uma obra filosófica de grande abrangência que busca responder a perguntas fundamentais sobre a justiça, o conhecimento e a verdadeira natureza da realidade. Além disso, a obra é uma verdadeira síntese das principais ideias da filosofia platônica, como a teoria das ideias, o mito da caverna e a doutrina do filósofo-rei.
Exploraremos, nesta ocasião, uma resenha geral sobre a obra, deixando para futuras ocasiões o estudo pormenorizado e técnico do texto.
📌 Estrutura da Obra
"A República" está dividida em dez livros (ou seções), nos quais Platão explora de forma dialética (através de diálogos) os problemas da justiça e da sociedade ideal. A obra começa com uma discussão sobre a natureza da justiça e, ao longo do texto, desenrola-se em uma análise abrangente da política, da ética, da epistemologia e da metafísica.
📌Principais Temas e Argumentos
O Problema da Justiça (Livros I e II)
O diálogo começa com uma discussão entre Sócrates e outros personagens (Céfalo, Polemarco, Trasímaco) sobre a natureza da justiça. Sócrates logo desafia as definições tradicionais, como a justiça sendo "dizer a verdade e pagar as dívidas" ou "dar a cada um o que lhe é devido". O sofista Trasímaco argumenta que a justiça não é mais do que o interesse do mais forte, ou seja, uma questão de poder, não de moralidade.
É aqui que Platão começa a desenvolver uma teoria ideal de justiça, que não se baseia no interesse dos poderosos, mas na harmonia e na ordem da alma e da cidade. Platão rejeita a visão cínica de Trasímaco e sugere que a justiça é algo intrinsecamente valioso, tanto para o indivíduo quanto para a cidade, e não apenas o interesse dos fortes ou uma convenção social.
A Cidade Ideal e a Divisão das Funções Sociais (Livros II-IV)
Para entender a justiça no indivíduo, Sócrates propõe uma analogia com a cidade. Ele começa a descrever como seria a cidade ideal (kallipolis), alegando que ela seria composta por três classes principais, cada uma com uma função específica: Produtores ou artesãos (agricultores, artesãos, comerciantes) – responsáveis pela produção de bens; Guardas (guardiões ou soldados) – encarregados da defesa e da manutenção da ordem; Governantes (filósofos-reis) – aqueles que detêm o conhecimento verdadeiro e são responsáveis pela tomada de decisões.
Cada uma dessas classes corresponde a uma parte da alma humana, que Platão divide em três: A parte racional – relacionada à busca pela verdade e à sabedoria; A parte irascível – associada à coragem e à vontade; A parte apetitiva – ligada aos desejos e às necessidades corporais.
A justiça na cidade emerge quando cada classe cumpre sua função sem interferir nas funções das outras. Da mesma forma, a justiça no indivíduo ocorre quando as três partes da alma estão em harmonia, com a razão controlando os apetites e a coragem auxiliando.
A justiça é uma forma de harmonia, tanto na cidade quanto na alma. A cidade ideal é aquela em que todos desempenham suas funções adequadamente, sem conflitos ou usurpações.
A Educação e a Alegoria da Caverna (Livros V-VII)
Platão dedica uma parte significativa da obra à educação, especialmente dos filósofos-reis. Ele argumenta que os governantes da cidade ideal devem ser filósofos, pois só eles têm acesso ao conhecimento verdadeiro (a episteme), enquanto as demais pessoas vive limitada no mundo das opiniões (a doxa).
Neste ponto, Platão introduz sua famosa Alegoria da Caverna (Livro VII), uma metáfora poderosa que ilustra a diferença entre o mundo das aparências e o mundo das ideias. Na alegoria, os seres humanos estão presos em uma caverna, vendo apenas sombras projetadas na parede, sem perceber que há uma realidade verdadeira fora da caverna. O filósofo é comparado àquele que escapa da caverna e vê o mundo real (o mundo das ideias), compreendendo a forma do bem, que é a fonte de toda verdade e conhecimento.
A educação é o processo de ascensão da alma, do mundo das sombras (opiniões) para o mundo da luz (conhecimento verdadeiro). O governante ideal é aquele que compreende a verdade última (a forma do bem) e pode guiar a cidade com sabedoria.
O Mito de Er e a Imortalidade da Alma (Livro X)
No último livro, Platão apresenta o Mito de Er, uma narrativa sobre a vida após a morte. O mito descreve como as almas são julgadas após a morte e escolhem seu próximo destino. A importância dessa passagem é dupla: Platão reforça a ideia da reencarnação e da vida justa como uma preparação para a outra vida, e também oferece uma conclusão moral para toda a obra, enfatizando que vale a pena viver uma vida justa, pois isso traz recompensas tanto nesta vida quanto na próxima.
A justiça é recompensada no além-vida, e a alma é imortal. O Mito de Er serve como um incentivo para a prática da justiça, sugerindo que o destino da alma após a morte está diretamente ligado à conduta moral realizada em vida.
📌A Teoria das Ideias na República:
A doutrina das ideias ou formas é central na filosofia de Platão e permeia "A República". Para Platão, as ideias são realidades eternas e imutáveis, das quais o mundo sensível é apenas uma cópia imperfeita. O conhecimento verdadeiro só é possível através da contemplação dessas ideias, especialmente a ideia do bem, que é a mais elevada de todas.
Neste sentido a obra levanta um importantíssimo ponto, a política é a vida social não são fenômenos exclusivamente convencionais ou acordados, mas, são relacionados diretamente com a busca pela verdade, pela justiça e por toda virtude humana.
📌A justiça na República:
Platão redefine, como proposição conclusiva, a justiça como a harmonia entre as partes da sociedade e da alma. Não é apenas uma questão de comportamento externo, mas uma condição interna de equilíbrio e ordem. É uma concepção de justiça que pode ser chamada de organicista, porquê não se trata de casos de repetição de padrões e aplicáveis constantemente, trata-se da variação do comportamento que leve a harmonia do corpo individual e social.
Tal concepção de justiça é, sem dúvidas, uma das grandes precursoras para o que viria a se consolidar como Direito, ou, dito de outra forma, as reflexões inauguradas por Platão formalizam e demonstram a necessidade social dos meios pelos quais as instituições sociais podem ganhar em relevância epistêmica quando aderem a sua busca peala verdadeira justiça. Embora a ideia proposta por Platão esteja bastante distante das concepções modernas, é inegável que a sua construção de uma ideia de justiça permanece viva até os nossos dias.
📌O Governo dos Filósofos
Um dos pontos mais revolucionários da obra é a defesa do governo dos filósofos. Para Platão, o poder político deve estar nas mãos daqueles que compreendem a verdade e têm o conhecimento necessário para guiar a cidade de maneira justa e eficaz.
Talvez para nós supostamente acostumados com regimes democráticos modernos a proposta de Platão pareça centralizadora, aristocrática e até autoritária. No entanto, não podemos desvincular da completude de sua teoria a noção da governança centralizada nos chamados Reis Filósofos. A proposta de Platão visa respeitar a natureza humana, mesmo que isso possa ser complexo em nossos tempos, e por tentar respeitar tal natureza a sua proposta visa alcançar um grau de liberdade inviável no sistema vigente no momento de sua escrita.
📌A Educação
A educação, para Platão, não é meramente técnica ou utilitária, mas um processo filosófico profundo que leva à contemplação da verdade. Somente aqueles que passaram por esse processo têm a capacidade de governar com sabedoria.
A educação, nos moldes propostos por Platão, tem uma função social explícita de construção de harmonia. Ainda, possui uma dimensão absolutamente esclarecedora, demonstrando racionalmente as possibilidades aos indivíduos e buscando criar critérios de justiça individual e coletiva em todos os momentos.
📌A Alegoria da Caverna
A Alegoria da Caverna é uma das metáforas mais conhecidas da filosofia. Ela ilustra a relação entre o mundo sensível e o mundo das ideias, e o papel da educação na ascensão da alma para o conhecimento verdadeiro.
A alegoria, embora muito conhecida e comentada, permanece como grande lição para todos nós. Afinal, é através do sacrifício, do esforço e do trabalho - inclusive intelectual - que deixamos o mundo sensível, das aparências e acessamos os conceitos e as ideais justas. A capacidade de sair do senso comum, das sombras da ignorância, são os elementos fundamentais tanto para o desenvolvimento pessoal quanto o desenvolvimento coletivo como sociedade ou nação.
📌Relevância de "A República" na Filosofia Contemporânea
"A República" continua sendo uma obra fundamental para a filosofia política e a teoria da justiça. Suas ideias sobre a educação, o governo ideal, e a natureza do conhecimento influenciaram filósofos ao longo dos séculos, desde Aristóteles até pensadores modernos como John Rawls. Embora o modelo da cidade ideal de Platão possa parecer utópico e inatingível, sua análise das virtudes da alma e sua defesa do governo baseado no conhecimento ainda são temas de debate na filosofia e nas ciências sociais.
Talvez não se trate de uma obra utópica, mas, na verdade, uma busca conjectural de delimitação de sua realidade vivida e de busca por superações que sejam capazes de alcançar novos níveis de realização de nossa vida política, individual, epistêmica, ética, estética, etc.
📌Por fim...
"A República" de Platão é uma obra monumental que explora questões filosóficas fundamentais sobre a justiça, o conhecimento e a política. Platão não apenas propõe um modelo ideal de sociedade, mas também oferece uma visão profunda da natureza humana e do papel da educação e da filosofia no desenvolvimento de uma vida virtuosa. Ao longo dos diálogos, Platão nos convida a refletir sobre o que significa ser justo, o que constitui uma boa vida e como podemos alcançar o verdadeiro conhecimento.
Nada que eu possa escrever nesta resenha será capaz de superar a necessidade e grandeza que o estudo da obra diretamente pode proporcionar. Por isso, por mais que aqui estejam colocadas as ideias gerais propostas por Platão, somente o contato, estudo e leitura rigorosa, permitirá a você, estimado leitor (a), criar as reflexões pertinentes para as nossas questões mais íntimas como humanos.
Espero que tenha gostado deste texto. Caso possa, compartilhe, comente e ajude este texto a chegar no máximo de leitores possíveis.
Até breve.
Respeitosamente.
Prof. Ricardo
Celia Regina.....
ResponderExcluirAchei que você foi bem claro a descrever a obra de Platão.....e foi interessante a saber que ele já mostrava cidades ideias ....Parabens
Ov
Obrigado minha querida! Você dá vida a este projeto!!!!
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